quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Os Graus de Leitura III: As Ideias

Depois de dominada a estrutura da linguagem e adquirido certa plasticidade no uso das palavras  (o que não se deve entender de forma absoluta) podemos abordar o nível ainda mais complexo que os anteriores: o das ideias.
Uma simples palavra, neste nível, adquire significado específico que é válido dentro de um sistema de pensamento. Isto é algo que transcende à "figura de linguagem" e torna a palavra (termo) e sua definição (conceito) incompreensível para uma grande parte da humanidade.
A palavra "substância", por exemplo, para nós modernos é semelhante à matéria  (a madeira desta mesa). Para Aristóteles esta palavra designa a essência (forma) com a matéria que subsiste por si mesma. Note-se que não consideramos a "forma" interna na definição moderna.
Pode parecer uma simples questão acadêmica, mas é através das "ideias" que interpretamos a Realidade, ou seja, que agimos dentro da esfera das ações humanas. Seja analfabeto ou doutorado, o ser humano "age" por ideias - quer sejam oriundas de si mesmo ou alheias.
Richard Weaver em seu livro "As ideias têm consequências" (1948) afirma que a maioria das pessoas segue ideias alheias, mesmo sem perceber e  - ainda mais trágico - a humanidade paga caro por seguir ideias equivocadas...

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Os Graus de Leitura II: Figuras de Linguagem

Não basta conhecer a estrutura formal da linguagem para ser bom leitor ou escritor. Além deste difícil atributo, faz-se necessário o domínio das "figuras de linguagem". Uma palavra, por exemplo, pode adquirir diversos sentidos dentro de um idioma.
No exemplo "Sócrates tropeçou na calçada", não há dificuldade. Mas se dissermos "Sócrates tropeça nas palavras", é exigido um nível de abstração acima do literal e a dificuldade para entender aumenta. A leitura e reflexão no estudo de obras literárias de autores de diversas épocas ajudam a desenvolver esta plasticidade intelectual.
Pode-se objetar que as "figuras de linguagem" fazem parte da estrutura forma da gramática e seriam, portanto, literais. Não é este o sentido que usamos aqui. Para perceber a esfera de ação deste nível é necessária a adição da "imaginação" no processo, o que não se dá automaticamente na aquisição da estrutura formal (gramática).
Machado de Assis nos dá um exemplo brilhante quando diz que Brás Cubas não é um "autor defunto" (um homem que escreve  livro e faleceu), mas sim um "defunto autor" (alguém que no mundo do Além resolveu escrever um livro).
No nível das "figuras de linguagem" as dificuldades se tornam ainda maiores que na fase da gramática. Muitas frases se tornam "polêmicas" porque as pessoas não compreendem "figuras de linguagem". Um exemplo moderno é o "menino usa azul e menina usa rosa": literalmente é um absurdo.

Os Graus de Leitura I: Literalidade

A linguagem é extremamente complexa e tem níveis de dificuldade, ou seja, abstração.
Há várias classificações de Hugo de São Vitor a Mortimer Adler. Usarei uma forma mais sintética, porém não se deve entender estes níveis de forma rígida: eles têm conexões e relações entre si.
No ato de ler o primeiro nível é a estrutura da linguagem, ou seja, o sentido literal do texto. O leitor deve conhecer os diversos elementos do idioma (sujeito, verbo, adjetivo, concordância, etc). Quando dizemos "Sócrates tropeçou na calçada", basta conhecer a estrutura básica, o que se diz do sujeito "alfabetizado". Neste exemplo não há dificuldade para ler e entender.
Parece simples, mas no último século a tendência de simplificar o estudo para a maioria, tem tornado o sentido de "alfabetização" algo muito elástico. Os antigos ligavam o ensino da linguagem à literatura, ou seja, conhecer a estrutura formal dentro de uma obra literária. Note-se que não eram usados textos "fáceis" e sim de autores de variados gêneros e épocas. Nas últimas décadas, o uso de textos de autores modernos e de teor mais simples tem mudado significativamente a qualidade da alfabetização.

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

O sábio e o filósofo

Pitágoras parece ter sido o primeiro a perceber, ao menos no registro histórico, que a sabedoria não é um estado fixo do ser humano.

É comum acreditar que seguindo determinados passos se chega ao que se acredita ser "sabedoria" e que este se mantenha por si.

Não obstante, se segue acreditando que o "sábio" recebe prêmios pela aquisição da "sabedoria": riqueza, poder, boa saúde, etc.

Mas, afinal, que raios é isso de "sabedoria"?

O já mencionado Pitágoras se definia como "filósofo", de filos (amor) e sophos "sabedoria ". A distinção é de suma importância, pois o filósofo (ao menos os clássicos) consideravam pretensioso o título de "sábio". Posteriormente o termo "sofista" iria adquirir um teor negativo na avaliação de Platão e Aristóteles.

Deste modo, o filósofo vê a sabedoria como um caminho e uma meta elevada. Como o universo é um mistério perene e a capacidade humana é limitada, por mais genial que seja um homem, teremos sempre o que aprender.

Felicidade: existe?

É bem conhecida a expressão "quer ser feliz ou ter razão?". Ser feliz, neste sentido, é um estado superior ao de estar certo num c...