É bem conhecida a expressão "quer ser feliz ou ter razão?". Ser feliz, neste sentido, é um estado superior ao de estar certo num certo momento da vida.
A conexão entre "felicidade" e prazer, atrelado a um desejo realizado, parece evidente neste enunciado popular. Mas será verdade?
Platão, usando Sócrates num diálogo, pergunta a seu interlocutor (se não falha a memória é o sofista Górgias) se não faz distinção entre os desejos que pululam no interior de cada um. Temos desejos bons e maus, ou seja, que podem ser satisfeitos e outros que não devem.
Posteriormente se tentou relativizar o teor dos desejos e agregar critérios utilitaristas, mas este seria tema adequado para outro artigo.
O ponto central aqui é o que é "felicidade" e se o desejo (mesmo sendo "bom") seria sua expressão adequada.
Aristóteles usava o termo "eudaimonia". Daimon é o conhecido "bom gênio" de Sócrates. Logo, feliz é o que tem um bom gênio dentro de si.
O desejo realizado não pode ser critério para dizer se alguém é ou não feliz. A razão é simples: desejos ilícitos dão prazer, mas mesmo assim trazem dissabores. Os desejos lícitos também podem ter o mesmo efeito.
Também não podemos manter a tese de que é feliz quem não tem desejo, porque tal pessoa não existe.
Renunciando à impossibilidade de felicidade constante, podemos perguntar se é possível felicidade em "gotas" e de que modo se daria.
A felicidade pode se dar na vida humana através da virtude: esta ocorre quando a alma humana está em ordem. Platão insistia neste ponto do ordenamento da alma como princípio para ordem na polis. Sabiamente São Tomás definia o "pecado" como desordem na alma.
A virtude, como bem disse Aristóteles, torna bom o homem e sua obra. Porém, o homem em sua curta vida terá apenas "gotas" de felicidade através do caminho da virtude.
Para além desta acepção, Santo Agostinho inferiu uma única solução: a felicidade humana só é plena no fim último do homem que é Deus, o seu "ratio boni" definitivo.
O já citado Aquinate ao completar o Doutor da Graça, acrescentava que a felicidade última é a contemplação da essência de "Deus". Isto é conhecido pelo nome de "beatitude".
A esta luz, vê-se que estar "certo" no sentido do caminho da Virtude, coincide perfeitamente com o caminho da felicidade humana. Passo fundamental para a felicidade no "Uno" platônico.
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