A concepção de "ideologia" como "estudo das ideias" abraça um plano meramente nominalista.
O ponto vital da questão é a interpretação da realidade. Neste sentido, as ideias que possibilitam com maior ou menor sucesso este processo são agrupadas sob certa "ideologia".
Obviamente a "ideologia" pode ter sucesso e nem por isso ser necessariamente "verdadeira". Neste artigo, entendemos "verdade" como correspondente a realidade. Sendo esta percebida pela inteligência humana.
A ideologia, no sentido negativo, seria aquela que interpretaria a realidade de forma falsa. Isto deve ser entendido claramente: a mentira explícita não é usada, mas sim sutilmente misturada com a verdade, de forma que se confundam.
Neste caso a "realidade" adquire uma "camada" e se torna "instrumental". Esta é a "ideologia" que trataremos daqui em frente: um grupo menor determina o que é real e como se deve proceder nesta "realidade", enquanto um grupo maior acata esta "interpretação".
A esta luz, a "ideologia" nasce de uma elite intelectual. Poucos têm capacidade para entender como a esfera humana opera, ainda que parcialmente. Neste caso, as ideias se tornam instrumento de poder. Esta é a primeira esfera e aqui se encontram grandes intelectos como Rosseau, Voltaire, Hegel e Marx entre outros.
Mas as ideias têm que sair dos salões e gabinetes. Para isso é preciso da segunda esfera: os intermediários ou mediadores. Estes compreendem uma parte das ideias originais e as enfeitam para se tornarem atrativas nos meios acadêmicos. Foi o caso, no Brasil, de Paulo Freire: este estudou o marxismo clássico e as obras de Sartre. Apesar de não ter "estatura" para criar obra original, nem por isso deixou de mesclar estas e outras ideias numa vasta obra que seduziu a classe docente por várias décadas.
Neste caminho já trilhado, a ideologia atinge uma parte considerável da sociedade. Porém, a maioria falta ser atingida. Este objetivo é conseguido com a ajuda dos mediadores, da mídia e pela força do Estado.
Para as massas a ideologia chega sutilmente embutida em ideias simples, ou seja, "slogans" e lugares comuns. Na terceira esfera, o sucesso depende da adesão das massas e o cultivo da "opinião" é de suma importância. O juiz supremo é o juízo pessoal, baseado num desejo obtuso e que é sugerido (ou obrigado por lei) pelo Estado.
Ninguém sabe exatamente de onde vem uma ideia, mas ela controla a vida de toda uma sociedade. A prisão é tão perfeita que raramente alguém não se considera "livre".
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