quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Felicidade: existe?

É bem conhecida a expressão "quer ser feliz ou ter razão?". Ser feliz, neste sentido, é um estado superior ao de estar certo num certo momento da vida. 
A conexão entre "felicidade" e prazer, atrelado a um desejo realizado, parece evidente neste enunciado popular. Mas será verdade?
Platão, usando Sócrates num diálogo, pergunta a seu interlocutor (se não falha a memória é o sofista Górgias) se não faz distinção entre os desejos que pululam no interior de cada um. Temos desejos bons e maus, ou seja, que podem ser satisfeitos e outros que não devem.
Posteriormente se tentou relativizar o teor dos desejos e agregar critérios utilitaristas, mas este seria tema adequado para outro artigo.
O ponto central aqui é o que é "felicidade" e se o desejo (mesmo sendo "bom") seria sua expressão adequada.
Aristóteles usava o termo "eudaimonia". Daimon é o conhecido "bom gênio" de Sócrates. Logo, feliz é o que tem um bom gênio dentro de si.
O desejo realizado não pode ser critério para dizer se alguém é ou não feliz. A razão é simples: desejos ilícitos dão prazer, mas mesmo assim trazem dissabores. Os desejos lícitos também podem ter o mesmo efeito.
Também não podemos manter a tese de que é feliz quem não tem desejo, porque tal pessoa não existe.
Renunciando à impossibilidade de felicidade constante, podemos perguntar se é possível felicidade em "gotas" e de que modo se daria.
A felicidade pode se dar na vida humana através da virtude: esta ocorre quando a alma humana está em ordem. Platão insistia neste ponto do ordenamento da alma como princípio para ordem na polis. Sabiamente São Tomás definia o "pecado" como desordem na alma.
A virtude, como bem disse Aristóteles, torna bom o homem e sua obra. Porém, o homem em sua curta vida terá apenas "gotas" de felicidade através do caminho da virtude.
Para além desta acepção, Santo Agostinho inferiu uma única solução: a felicidade humana só é plena no fim último do homem que é Deus, o seu "ratio boni" definitivo.
O já citado Aquinate ao completar o Doutor da Graça, acrescentava que a felicidade última é a contemplação da essência de "Deus". Isto é conhecido pelo nome de "beatitude".
A esta luz, vê-se que estar "certo" no sentido do caminho da Virtude, coincide perfeitamente com o caminho da felicidade humana. Passo fundamental para a felicidade no "Uno" platônico.

terça-feira, 8 de novembro de 2022

As Três Esferas da Ideologia

A concepção de "ideologia" como "estudo das ideias" abraça um plano meramente nominalista. 

O ponto vital da questão é a interpretação da realidade. Neste sentido, as ideias que possibilitam com maior ou menor sucesso este processo são agrupadas sob certa "ideologia".

Obviamente a "ideologia" pode ter sucesso e nem por isso ser necessariamente "verdadeira". Neste artigo, entendemos "verdade" como correspondente a realidade. Sendo esta percebida pela inteligência humana.

A ideologia, no sentido negativo, seria aquela que interpretaria a realidade de forma falsa. Isto deve ser entendido claramente: a mentira explícita não é usada, mas sim sutilmente misturada com a verdade, de forma que se confundam.

Neste caso a "realidade" adquire uma "camada" e se torna "instrumental". Esta é a "ideologia" que trataremos daqui em frente: um grupo menor determina o que é real e como se deve proceder nesta "realidade", enquanto um grupo maior acata esta "interpretação".

A esta luz, a "ideologia" nasce de uma elite intelectual. Poucos têm capacidade para entender como a esfera humana opera, ainda que parcialmente. Neste caso, as ideias se tornam instrumento de poder. Esta é a primeira esfera e aqui se encontram grandes intelectos como Rosseau, Voltaire, Hegel e Marx entre outros.

Mas as ideias têm que sair dos salões e gabinetes. Para isso é preciso da segunda esfera: os intermediários ou mediadores. Estes compreendem uma parte das ideias originais e as enfeitam para se tornarem atrativas nos meios acadêmicos. Foi o caso, no Brasil, de Paulo Freire: este estudou o marxismo clássico e as obras de Sartre. Apesar de não ter "estatura" para criar obra original, nem por isso deixou de mesclar estas e outras ideias numa vasta obra que seduziu a classe docente por várias décadas.

Neste caminho já trilhado, a ideologia atinge uma parte considerável da sociedade. Porém, a maioria falta ser atingida. Este objetivo é conseguido com a ajuda dos mediadores, da mídia e pela força do Estado. 

Para as massas a ideologia chega sutilmente embutida em ideias simples, ou seja, "slogans" e lugares comuns. Na terceira esfera, o sucesso depende da adesão das massas e o cultivo da "opinião" é de suma importância. O juiz supremo é o juízo pessoal, baseado num desejo obtuso e que é sugerido (ou obrigado por lei) pelo Estado. 

Ninguém sabe exatamente de onde vem uma ideia, mas ela controla a vida de toda uma sociedade. A prisão é tão perfeita que raramente alguém não se considera "livre".

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Esquerda: Pensamento e Linguagem

A Esquerda tem seus méritos e um deles é o estudo, no sentido filosófico do termo,  profundo dos temas utilizados para fins de sua infame ideologia.
O principal deles (relacionado ao ensaio da "Pedra Angular da Esquerda) é a conexão entre linguagem e pensamento. Nesta "pedra" as pessoas de fora tropeçam e acabam afundando na areia movediça da ideologia.
O ser humano não é "matéria" como equivocadamente se acredita. Vivemos na esfera "inteligível", ou seja, a realidade é interpretada pela inteligência, mais propriamente Intelecto, do qual a "razão " é um dos atributos dele.
A linguagem molda o pensamento. A Esquerda entendeu isso com maestria. De fato, "criando" significados, as pessoas passarão a "pensar" de acordo com este molde.
Reflitamos. Diante de determinada expressão, alguém diz que este termo é "preconceito". A raiz do problema é: de onde veio esta ideia? Raramente alguém examina se realmente o termo seria preconceituoso na realidade. 
Neste exemplo, uma reflexão profunda rastrearia a origem deste "critério", que reside num condicionamento pela mídia ou pela educação fornecida pelo Estado. Um verdadeiro "preconceito"!
Nós não pensamos, uma elite intelectual pensa por nós.
Não nos enganemos com a palavra "intelectual". O vulgo a vê como aquele que se ocupa com ideias fúteis e endeusa o homem "prático". Não tratamos aqui destes tipos e sim daqueles que "pensam" a realidade, que será  por força de hábito e pelas leis, imposta à massa humana.
São Tomás de Aquino dizia que "nomeamos aquilo que inteligimos". O mundo moderno faz séculos vem "inteligido aquilo que nomeia".
A consequência disso é óbvia: a ideologia lança o termo e predispõe o "significado" que deve ser aceito. Esta aceitação se dá por persuasão e por força de lei.
Não é de se admirar o termos chego numa época onde sexo (gênero) ser definido por uma "identificação", ou seja, um desejo momentâneo. 
Como alertou Burke: tiramos conclusões de nossas conclusões...

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

A Pedra Angular da Esquerda

Comumente se entende como fundamento da Esquerda a luta de classes inseridas no meio econômico.

Ao contrário do que muitos equivocadamente pensam, não se trata do pobre trabalhador tentando reparar as injustiças causadas pelo patrão opressor. No século XIX mesmo Marx já havia "expandido" esta ideia.

Embora a "realidade" para a Esquerda seja a esfera material, ou seja, o homem é o produto do "meio" e de fatores considerados mecânicos.

A esta luz, a vida humana termina com a morte. Qualquer ideia de "alma", "providência divina" ou vida após a morte é uma pretensão, ao fim inútil.

Decorre desta premissa, que a vida "virtuosa" será aquela em que o indivíduo usufrui do máximo de prazeres possível antes da "hora derradeira".

Há um equívoco no julgamento dos "valores" da Esquerda: está ausente desta conta o seu verdadeiro valor fundamental.

Os fatores "materiais" são acidentes (no sentido filosófico). A pedra angular é o fator "transcende", ou seja, o "pensamento" como última instância e sua alienação.

Se é possível descartar valores usados por milênios como alma, Deus, vida após a morte, etc. Não há como negar o valor do "pensamento". E Marx soube astutamente inserir a "alienação" do ser humano com o capital.

Mas é preciso notar que o fermento de certas "filosofias" fez este bolo ideológico crescer ao longo de séculos. A chave está na busca e adoção de uma "verdade instrumental" em detrimento da "Verdade Objetiva".

Os sofistas na Grécia antiga plantaram a semente. Ockham contribuiu com a separação de fé e razão, cimentadas pelo "Nominalismo".

Dali em diante, os Iluministas Franceses adicionaram nesta receita a razão, não como ela sempre existiu, mas como juiz soberano. Neste passo, Hegel arremata a coroa nesta nova "deusa". Marx acrescenta a "luta de classes", que mais tarde iria adquirir um sentido incrivelmente elástico. Neste século XXI ainda continua incorporando formas externas...

O pensamento humano é a "última instância" da realidade. A razão, um atributo do Intelecto para as tradições clássicas, se torna uma "deusa" absoluta.

Este modo de pensar, é claro, conduziu à seguinte conclusão: aqueles que têm maior poder de conceber e de compreender as ideias, são os mais aptos da humanidade.

De fato, há duas classes neste "mundo": uma elite que alça os cumes da "razão absoluta" e a massa dominada. Não sejamos apressados. Há inúmeros intercalamentos entre estas duas divisões formais.

O homem, como concluiu o infame Voltaire, criou um "deus" à sua imagem e semelhança, pagando com moeda vil a Deus seu Criador.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Pedagogia Moderna III: As Catacumbas

Na pedagogia clássica aquele que aprende (seja aluno ou discípulo) deve se entregar com reverência ao estudo. Não há atitude "lúdica" no ensino.
O método de ensinar não é necessariamente enfadonho ou rígido, mas aprender deve ser distinto das atividades lúdicas. Como dizia Gustavo Corção, repetindo as palavras de sua mãe ao lhe ensinar matemática: é hora de aprender, não de brincar.
O ensino clássico exige virtudes, dos quais o estudante moderno declina ao menos em boa parte. O estudo não se torna agradável ao aprendiz: este tem que exercitar sua vontade, paciência e disciplina. É vencer a si mesmo já desde criança.
A tradição desempenha papel importante: os autores que vieram antes, seja por décadas, séculos ou milênios, têm muito a nos ensinar. 
Platão e Aristóteles, por exemplo, se debruçaram nos mesmos problemas que nós. Não seria novidade se soluções que eles apontavam pudesse ajudar os modernos, desde que estes tenham a humildade de procurar.
Infelizmente o ensino moderno desdenha a cultura clássica e incentiva a "opinião", se apertando das virtudes.
Não devemos se entregar ao mundo da crítica: ao contrário, devemos seguir o exemplo dos primeiros Cristãos, que em meio à dura perseguição, usavam as catacumbas para se instruírem nos textos da revelação e também nos clássicos dos pagãos.

Pedagogia Moderna II: Estúpido Letrado

Depois de definido o primeiro ponto da autoridade, ou melhor, da minimização da autoridade por parte de quem ensina em relação a quem aprende, chegou o momento de abordar o segundo ponto: o conteúdo.

Não precisamos nos estender nas críticas modernas aos métodos clássicos sobre os conteúdos: é uma extensão das desferidas à autoridade.

Nos três métodos clássicos (Paideia, Trivium e Quadrivium e no Ratio Studiorum) o conteúdo era detalhadamente trabalhado.

O estudante aprendia a gramática encorado por uma literatura consagrada. Por exemplo, aprendia latim e grego, utilizando textos de Virgílio e Ésquilo. 

A Gramática era parte do currículo. Paralelamente a Retórica (arte de argumentar) e a Lógica seguiam passo semelhante com obras como as de Cícero e Aristóteles.

Para estes pedagogos, estudar sem conhecer a estrutura da gramática, o seu bom uso na literatura, as estruturas da argumentação e da lógica, seria um trabalho inútil.

Não sem razão, temos dificuldade para ler os autores gregos e escolásticos: a estrutura da linguagem e das formas lógicas são muito robustas para o nosso paladar mais delicado.

Enfim, o "conteúdo" clássico é vilependiado como instrução inútil na educação moderna. A ênfase moderna é em "temas" que formem bons cidadãos.

O que seria esta formação do "bom cidadão"? Aquele que se acomoda na forma das "virtudes" estabelecidas pela "vontade geral" (obviamente definida pelos "representantes" do povo).

Mais que conhecer a estrutura da linguagem e da lógica, importa segundo este critério moderno, "tomar consciência dos problemas de gênero e classe que corrigem as desigualdades".

A esta luz, o educando vai cada vez mais conhecendo as diversas formas de desigualdade (econômica, gênero ou raça). Inversamente passa a conhecer menos a própria linguagem, suas formas lógicas de expressão e ainda mais dramático, não se preocupa se estas "desigualdades" são verdadeiras.

De novo a lição do Aquinate: quanto mais complexo o conteúdo, mais são precisos conhecimentos precedentes. 

Se não há conteúdo (adquirido por estudo de várias fontes e de diversas épocas) o resultado é uma "opinião" assentada num sentimento confuso. A reflexão sólida dá lugar ao sabor das paixões do momento, algo que Burke constantemente alertava.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Pedagogia Moderna I: O Oprimido Opressor

Há dois pontos fundamentais onde a pedagogia moderna e clássica divergem profundamente.
O primeiro deles, que nomearemos como princípio da autoridade, estabelece a relação entre quem aprende e quem ensina.
A divergência inicia por aqui. Na modernidade (das últimas décadas) os termos foram se lapidando e variando. Podemos usar, contudo, estes: educando (que equivale ao "aluno") e educador (que equivale ao "professor".
O papel do educador é de "mediar" o conhecimento que o educando irá construir a partir da sua experiência. A esta luz, o papel ativo é do "educando". O "educador" serve como guia para os recursos humanos daquele.
Apesar da doçura das teorias pedagógicas, a realidade crua é que o educador, ao menos em grande medida, se submete ao educando e seus caprichos. Obviamente o ECA dá força de lei a este desiderato.
Os teóricos modernos criticam as relações de aluno/professor ou discípulo/mestre como "opressoras" e afirmam que apenas "decoravam", mas não aprendiam no sentido moderno. 
Esta crítica é uma repetição das palavras de Cipriano Luchesi, discípulo de Paulo Freire aos jesuítas. Gerações de pedagogos a endossaram, mas nunca se deram ao trabalho de estudar o "ratio studiorium" dos jesuítas e o seu resultado.
Nesta pedagogia clássica (e das Artes Liberais e Paideia) o professor não media passivamente. De outro modo, também o aluno não tem papel mais ativo.
Os críticos exacerbam os casos de autoritarismo e castigos para depreciar os métodos clássicos. Mas mesmo que fossem constantes, não justificaria o método permissivo da pedagogia moderna.
A questão de que "ninguém ensina ninguém" e que "mediatizados pelo mundo aprendemos uns com os outros" é farsa gritante: como poderíamos aprender através do "mundo", se como diz este enunciado de Paulo Freire, não se aprende com alguém de forma direta? Qual é  este misterioso princípio que ativa esta propriedade?
Esta insana ideia foi refutada por São Tomás de Aquino no século XIII. Pois Aquino afirmava que a razão natural do mestre estimula a do discípulo. Nesta condição as duas razões, como duas rodas, fazem o movimento da aprendizagem. A roda maior (do que sabe), gira a roda menor (do que desconhece).
Ademais, quem aprende, geralmente se tratando de crianças ou adolescentes, jamais poderiam estar em condições de autoridade com relação ao adulto, pois não tem discernimento suficiente nem experiência. Basta ver o desrespeito em geral para com os mais velhos.
Passemos ao próximo ponto...

Felicidade: existe?

É bem conhecida a expressão "quer ser feliz ou ter razão?". Ser feliz, neste sentido, é um estado superior ao de estar certo num c...