Comumente se entende como fundamento da Esquerda a luta de classes inseridas no meio econômico.
Ao contrário do que muitos equivocadamente pensam, não se trata do pobre trabalhador tentando reparar as injustiças causadas pelo patrão opressor. No século XIX mesmo Marx já havia "expandido" esta ideia.
Embora a "realidade" para a Esquerda seja a esfera material, ou seja, o homem é o produto do "meio" e de fatores considerados mecânicos.
A esta luz, a vida humana termina com a morte. Qualquer ideia de "alma", "providência divina" ou vida após a morte é uma pretensão, ao fim inútil.
Decorre desta premissa, que a vida "virtuosa" será aquela em que o indivíduo usufrui do máximo de prazeres possível antes da "hora derradeira".
Há um equívoco no julgamento dos "valores" da Esquerda: está ausente desta conta o seu verdadeiro valor fundamental.
Os fatores "materiais" são acidentes (no sentido filosófico). A pedra angular é o fator "transcende", ou seja, o "pensamento" como última instância e sua alienação.
Se é possível descartar valores usados por milênios como alma, Deus, vida após a morte, etc. Não há como negar o valor do "pensamento". E Marx soube astutamente inserir a "alienação" do ser humano com o capital.
Mas é preciso notar que o fermento de certas "filosofias" fez este bolo ideológico crescer ao longo de séculos. A chave está na busca e adoção de uma "verdade instrumental" em detrimento da "Verdade Objetiva".
Os sofistas na Grécia antiga plantaram a semente. Ockham contribuiu com a separação de fé e razão, cimentadas pelo "Nominalismo".
Dali em diante, os Iluministas Franceses adicionaram nesta receita a razão, não como ela sempre existiu, mas como juiz soberano. Neste passo, Hegel arremata a coroa nesta nova "deusa". Marx acrescenta a "luta de classes", que mais tarde iria adquirir um sentido incrivelmente elástico. Neste século XXI ainda continua incorporando formas externas...
O pensamento humano é a "última instância" da realidade. A razão, um atributo do Intelecto para as tradições clássicas, se torna uma "deusa" absoluta.
Este modo de pensar, é claro, conduziu à seguinte conclusão: aqueles que têm maior poder de conceber e de compreender as ideias, são os mais aptos da humanidade.
De fato, há duas classes neste "mundo": uma elite que alça os cumes da "razão absoluta" e a massa dominada. Não sejamos apressados. Há inúmeros intercalamentos entre estas duas divisões formais.
O homem, como concluiu o infame Voltaire, criou um "deus" à sua imagem e semelhança, pagando com moeda vil a Deus seu Criador.