segunda-feira, 31 de outubro de 2022

A Pedra Angular da Esquerda

Comumente se entende como fundamento da Esquerda a luta de classes inseridas no meio econômico.

Ao contrário do que muitos equivocadamente pensam, não se trata do pobre trabalhador tentando reparar as injustiças causadas pelo patrão opressor. No século XIX mesmo Marx já havia "expandido" esta ideia.

Embora a "realidade" para a Esquerda seja a esfera material, ou seja, o homem é o produto do "meio" e de fatores considerados mecânicos.

A esta luz, a vida humana termina com a morte. Qualquer ideia de "alma", "providência divina" ou vida após a morte é uma pretensão, ao fim inútil.

Decorre desta premissa, que a vida "virtuosa" será aquela em que o indivíduo usufrui do máximo de prazeres possível antes da "hora derradeira".

Há um equívoco no julgamento dos "valores" da Esquerda: está ausente desta conta o seu verdadeiro valor fundamental.

Os fatores "materiais" são acidentes (no sentido filosófico). A pedra angular é o fator "transcende", ou seja, o "pensamento" como última instância e sua alienação.

Se é possível descartar valores usados por milênios como alma, Deus, vida após a morte, etc. Não há como negar o valor do "pensamento". E Marx soube astutamente inserir a "alienação" do ser humano com o capital.

Mas é preciso notar que o fermento de certas "filosofias" fez este bolo ideológico crescer ao longo de séculos. A chave está na busca e adoção de uma "verdade instrumental" em detrimento da "Verdade Objetiva".

Os sofistas na Grécia antiga plantaram a semente. Ockham contribuiu com a separação de fé e razão, cimentadas pelo "Nominalismo".

Dali em diante, os Iluministas Franceses adicionaram nesta receita a razão, não como ela sempre existiu, mas como juiz soberano. Neste passo, Hegel arremata a coroa nesta nova "deusa". Marx acrescenta a "luta de classes", que mais tarde iria adquirir um sentido incrivelmente elástico. Neste século XXI ainda continua incorporando formas externas...

O pensamento humano é a "última instância" da realidade. A razão, um atributo do Intelecto para as tradições clássicas, se torna uma "deusa" absoluta.

Este modo de pensar, é claro, conduziu à seguinte conclusão: aqueles que têm maior poder de conceber e de compreender as ideias, são os mais aptos da humanidade.

De fato, há duas classes neste "mundo": uma elite que alça os cumes da "razão absoluta" e a massa dominada. Não sejamos apressados. Há inúmeros intercalamentos entre estas duas divisões formais.

O homem, como concluiu o infame Voltaire, criou um "deus" à sua imagem e semelhança, pagando com moeda vil a Deus seu Criador.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Pedagogia Moderna III: As Catacumbas

Na pedagogia clássica aquele que aprende (seja aluno ou discípulo) deve se entregar com reverência ao estudo. Não há atitude "lúdica" no ensino.
O método de ensinar não é necessariamente enfadonho ou rígido, mas aprender deve ser distinto das atividades lúdicas. Como dizia Gustavo Corção, repetindo as palavras de sua mãe ao lhe ensinar matemática: é hora de aprender, não de brincar.
O ensino clássico exige virtudes, dos quais o estudante moderno declina ao menos em boa parte. O estudo não se torna agradável ao aprendiz: este tem que exercitar sua vontade, paciência e disciplina. É vencer a si mesmo já desde criança.
A tradição desempenha papel importante: os autores que vieram antes, seja por décadas, séculos ou milênios, têm muito a nos ensinar. 
Platão e Aristóteles, por exemplo, se debruçaram nos mesmos problemas que nós. Não seria novidade se soluções que eles apontavam pudesse ajudar os modernos, desde que estes tenham a humildade de procurar.
Infelizmente o ensino moderno desdenha a cultura clássica e incentiva a "opinião", se apertando das virtudes.
Não devemos se entregar ao mundo da crítica: ao contrário, devemos seguir o exemplo dos primeiros Cristãos, que em meio à dura perseguição, usavam as catacumbas para se instruírem nos textos da revelação e também nos clássicos dos pagãos.

Pedagogia Moderna II: Estúpido Letrado

Depois de definido o primeiro ponto da autoridade, ou melhor, da minimização da autoridade por parte de quem ensina em relação a quem aprende, chegou o momento de abordar o segundo ponto: o conteúdo.

Não precisamos nos estender nas críticas modernas aos métodos clássicos sobre os conteúdos: é uma extensão das desferidas à autoridade.

Nos três métodos clássicos (Paideia, Trivium e Quadrivium e no Ratio Studiorum) o conteúdo era detalhadamente trabalhado.

O estudante aprendia a gramática encorado por uma literatura consagrada. Por exemplo, aprendia latim e grego, utilizando textos de Virgílio e Ésquilo. 

A Gramática era parte do currículo. Paralelamente a Retórica (arte de argumentar) e a Lógica seguiam passo semelhante com obras como as de Cícero e Aristóteles.

Para estes pedagogos, estudar sem conhecer a estrutura da gramática, o seu bom uso na literatura, as estruturas da argumentação e da lógica, seria um trabalho inútil.

Não sem razão, temos dificuldade para ler os autores gregos e escolásticos: a estrutura da linguagem e das formas lógicas são muito robustas para o nosso paladar mais delicado.

Enfim, o "conteúdo" clássico é vilependiado como instrução inútil na educação moderna. A ênfase moderna é em "temas" que formem bons cidadãos.

O que seria esta formação do "bom cidadão"? Aquele que se acomoda na forma das "virtudes" estabelecidas pela "vontade geral" (obviamente definida pelos "representantes" do povo).

Mais que conhecer a estrutura da linguagem e da lógica, importa segundo este critério moderno, "tomar consciência dos problemas de gênero e classe que corrigem as desigualdades".

A esta luz, o educando vai cada vez mais conhecendo as diversas formas de desigualdade (econômica, gênero ou raça). Inversamente passa a conhecer menos a própria linguagem, suas formas lógicas de expressão e ainda mais dramático, não se preocupa se estas "desigualdades" são verdadeiras.

De novo a lição do Aquinate: quanto mais complexo o conteúdo, mais são precisos conhecimentos precedentes. 

Se não há conteúdo (adquirido por estudo de várias fontes e de diversas épocas) o resultado é uma "opinião" assentada num sentimento confuso. A reflexão sólida dá lugar ao sabor das paixões do momento, algo que Burke constantemente alertava.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Pedagogia Moderna I: O Oprimido Opressor

Há dois pontos fundamentais onde a pedagogia moderna e clássica divergem profundamente.
O primeiro deles, que nomearemos como princípio da autoridade, estabelece a relação entre quem aprende e quem ensina.
A divergência inicia por aqui. Na modernidade (das últimas décadas) os termos foram se lapidando e variando. Podemos usar, contudo, estes: educando (que equivale ao "aluno") e educador (que equivale ao "professor".
O papel do educador é de "mediar" o conhecimento que o educando irá construir a partir da sua experiência. A esta luz, o papel ativo é do "educando". O "educador" serve como guia para os recursos humanos daquele.
Apesar da doçura das teorias pedagógicas, a realidade crua é que o educador, ao menos em grande medida, se submete ao educando e seus caprichos. Obviamente o ECA dá força de lei a este desiderato.
Os teóricos modernos criticam as relações de aluno/professor ou discípulo/mestre como "opressoras" e afirmam que apenas "decoravam", mas não aprendiam no sentido moderno. 
Esta crítica é uma repetição das palavras de Cipriano Luchesi, discípulo de Paulo Freire aos jesuítas. Gerações de pedagogos a endossaram, mas nunca se deram ao trabalho de estudar o "ratio studiorium" dos jesuítas e o seu resultado.
Nesta pedagogia clássica (e das Artes Liberais e Paideia) o professor não media passivamente. De outro modo, também o aluno não tem papel mais ativo.
Os críticos exacerbam os casos de autoritarismo e castigos para depreciar os métodos clássicos. Mas mesmo que fossem constantes, não justificaria o método permissivo da pedagogia moderna.
A questão de que "ninguém ensina ninguém" e que "mediatizados pelo mundo aprendemos uns com os outros" é farsa gritante: como poderíamos aprender através do "mundo", se como diz este enunciado de Paulo Freire, não se aprende com alguém de forma direta? Qual é  este misterioso princípio que ativa esta propriedade?
Esta insana ideia foi refutada por São Tomás de Aquino no século XIII. Pois Aquino afirmava que a razão natural do mestre estimula a do discípulo. Nesta condição as duas razões, como duas rodas, fazem o movimento da aprendizagem. A roda maior (do que sabe), gira a roda menor (do que desconhece).
Ademais, quem aprende, geralmente se tratando de crianças ou adolescentes, jamais poderiam estar em condições de autoridade com relação ao adulto, pois não tem discernimento suficiente nem experiência. Basta ver o desrespeito em geral para com os mais velhos.
Passemos ao próximo ponto...

terça-feira, 4 de outubro de 2022

O Reino da Doxa (Opinião) III

Se o filósofo é aquele que ama o conhecimento verdadeiro e por extensão a sabedoria, não se poderia deixar de contrapor o seu inverso: o filodoxo.

O termo parece ter sido cunhado por Sócrates ou Platão. O filodoxo dá valor à opinião.

Podemos entender "opinião" por um juízo emitido de forma superficial. Toda opinião é apressada e rasa. Se calha por acertar, se deve ao método de tentativa de erro.

Na modernidade, "estudamos" através de resumos feitos por terceiros e mediante isso emitimos opinião.

Alexis de Tocqueville, francês,  para dar um exemplo, estudou várias obras antigas e de sua época (XIX) sobre democracia. Não contente, viajou com recursos próprios para os EUA, onde visitou muitas localidades conversando com moradores e examinando documentos. Desta empresa nasceu o monumental "Da Democracia na América".

Tocqueville não opinou sobre a democracia: não era opositor e nem simpatizante. Foi estudar a fundo para compreender. Nos tempos atuais temos milhares de "influencers" e até mesmo "doutores" que discorrem amplamente com teor ideológico ou superficialmente sobre vários assuntos.

Até a Idade Média era de praxe ler os autores mais antigos para ver se havia sido solucionada alguma questão. Depois seguiam para os da sua atualidade. O nosso proceder é diferente: lemos os mais recentes, ou melhor, o "resumo" dos mais recentes.

A opinião é o caminho da maioria: ler textos curtos e "mastigados" com frases de efeito. 

O conhecimento verdadeiro é um caminho exigente: exige estudo de diferentes pontos de vista. Isso leva tempo e dá muito trabalho.

A Doutrina Católica

Entendo por "doutrina" uma constelação de ideias que se conectam por um fio condutor, mesmo que aparentemente pareçam contraditórias, formando uma unidade.

A Doutrina Católica começa com o Novo Testamento (embora faça uso do Velho Testamento). Com Ireneu de Lyon no século II, passando pela Patristica culminado em Agostinho de Hipona e atingindo seu ponto alto na Escolástica com Tomás de Aquino.

Não quero dar a entender que isso seja tudo: há autores intermediários entre e após estes citados, além do exemplo dos "Santos". O ponto é que alguns autores se destacam pela extensão e profundidade da sua produção.

Matematicamente poderíamos dizer que: Novo Testamento + Velho Testamento + Tradição (estudo dos Patriarcas e Escolásticos) + Vida Exemplar dos Santos (incluo mesmo os que não foram "santificados") = Doutrina Católica.

As objeções óbvias poderiam ser as seguintes: se a Igreja Católica errou na escolha e tradução dos livros bíblicos; se a "tradição" alterou ou corrompeu o sentido das Escrituras.

A isto seria justo examinar também se as petições da Reforma Protestante são válidas e se o que é ensinado na formação dos sacerdotes e o que chega aos fiéis é efetivamente "Católico" por este prisma.

Todos estes pontos exigem uma explanação longa e trato específico de cada ponto. Este critério extrapola este limitado ensaio. 

Pretendo abordar aos poucos estes assuntos, mas já posso adiantar que o que delimitei como "Doutrina Católica" é um campo muito vasto e realmente a maioria pouco compreende dela: estejam dentro ou fora da Igreja.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

O Reino da Doxa (Opinião) II

Alguns séculos antes de Cristo os sofistas relutavam  adotar um critério objetivo do conhecimento verdadeiro além do que aprendia pelos sentidos e pela experiência.
A causa residia na variedade do princípio de conhecimento: a água, fogo, a mente, os números, etc.
O argumento é simples: se a maioria dos "sábios" não chegam a um acordo, então não existe um conhecimento verdadeiro sobre certas coisas: estamos de acordo sobre a existência desta árvore à nossa frente, mas não sobre o que é justiça.
Dos sofistas passemos ao nominalismo de Ockham do século XIV: a semente de que a ideia não existe fora da mente que a concebe, a separação radical das espécies de conhecimento (Teologia e Filosofia, por exemplo) e a teoria que o conceito mais simples deve ser preferido nas ciências. 
O nominalismo foi o carro chefe do que se seguiu depois e culminou no Iluminismo Francês. Aqui vemos que o homem é concebido à parte e em pedaços até chegar em Hegel e finalmente no marxismo. O positivismo arrematou estas ideias.

O Reino da Doxa (Opinião) I

O conhecimento é um ato humano de extrema complexidade.
Conhecemos a maçã, isto é: vemos sua cor, pelo tato sentimos sua textura, pelo faro percebemos seu cheiro e podemos ouvir o som quando a batemos numa superfície. Mas a maçã é tudo isso... e muito mais.
Conhecimento e verdade não são sinônimos: vemos o sol se "mover", acreditamos que seja um disco pequeno, mas o sol "é" muito diferente disso. A experiência pessoal de cada um basta para provar que o falso pode ser conhecido e se passa por verdadeiro.
Ainda hoje se discute se podemos conhecer verdadeiramente ou se tudo passa de convenções. Isso já tem, no mínimo, mais de 2000 anos...
Afirmar que tudo é igualmente verdadeiro ou que nada tem verdade objetiva, cai no mesmo absurdo. Alguém que sustente não haver verdade absoluta, acaba de criar uma. Se todos os enunciados são verdadeiros, anula-se pelo fato de alguém sustentar que tudo é falso.
A solução de Platão, Aristóteles e dos Escolásticos é de que podemos conhecer verdadeiramente ao menos uma parte da realidade (o que é).

A Leitura e o Leitor

Os três graus de leitura - literalidade, figuras de linguagem e o das ideias - devem ser compreendidos como estruturas que se conectam entre si. Dito de outro modo, a compreensão correta de um texto depende destas três esferas simultaneamente, com predominância de uma delas .

Uma fábula de Esopo, por exemplo, já exige uma agilidade mental para fazer analogias entre as características humanas figuradas pelos animais e as ações entre eles.

Romances e ficções, em geral, não oferecem grandes dificuldades para serem compreendidos. Obviamente dependerá do quanto o autor "misturou" suas ideias no texto, especialmente se fez uso de "símbolos" (estes são complexos e exigem uma exposição própria para tratar).

A obra "1984" de Orwell aborda ideias complexas sobre o uso da linguagem para que um grupo exerça poder sobre uma grande maioria. Ser "alfabetizado" não é suficiente para compreender esta obra: é preciso entender as analogias e que as palavras assumem significados sutis na obra.

Acima destas estão as obras filosóficas: os diálogos de Platão, a Metafísica de Aristóteles, a Trindade de Agostinho e a Suma Teológica de São Tomás contém os três níveis de leitura em grau elevadíssimo, além de serem carregadas de simbolismo. Em geral, obras filosóficas são as mais complexas para se entender.

Contudo, é preciso considerar como já foi dito antes, o uso do simbolismo: Dante utiliza na "Divina Comédia" ideias filosóficas dos escolásticos revestidos de elevado simbolismo. Não sem razão, este poema é, talvez, o ponto alto da literatura da humanidade.

Todos podem ler um simples bilhete, mas compreender certas obras, mesmo de forma geral, parece ser para um círculo restrito de pessoas. Copleston alude que Avicena leu a "Metafísica" de Aristóteles 40 vezes para compreende-la bem.

E a Bíblia? Esta é carregada de simbolismo, que muitos confundem equivocadamente com as figuras de linguagem da gramática. Não se trata disso. Ser alfabetizado, por melhor que seja, não é suficiente. A leitura do "Símbolo" é exigente, donde cai por terra a falácia da "sola scriptura".

Felicidade: existe?

É bem conhecida a expressão "quer ser feliz ou ter razão?". Ser feliz, neste sentido, é um estado superior ao de estar certo num c...