terça-feira, 4 de outubro de 2022

O Reino da Doxa (Opinião) III

Se o filósofo é aquele que ama o conhecimento verdadeiro e por extensão a sabedoria, não se poderia deixar de contrapor o seu inverso: o filodoxo.

O termo parece ter sido cunhado por Sócrates ou Platão. O filodoxo dá valor à opinião.

Podemos entender "opinião" por um juízo emitido de forma superficial. Toda opinião é apressada e rasa. Se calha por acertar, se deve ao método de tentativa de erro.

Na modernidade, "estudamos" através de resumos feitos por terceiros e mediante isso emitimos opinião.

Alexis de Tocqueville, francês,  para dar um exemplo, estudou várias obras antigas e de sua época (XIX) sobre democracia. Não contente, viajou com recursos próprios para os EUA, onde visitou muitas localidades conversando com moradores e examinando documentos. Desta empresa nasceu o monumental "Da Democracia na América".

Tocqueville não opinou sobre a democracia: não era opositor e nem simpatizante. Foi estudar a fundo para compreender. Nos tempos atuais temos milhares de "influencers" e até mesmo "doutores" que discorrem amplamente com teor ideológico ou superficialmente sobre vários assuntos.

Até a Idade Média era de praxe ler os autores mais antigos para ver se havia sido solucionada alguma questão. Depois seguiam para os da sua atualidade. O nosso proceder é diferente: lemos os mais recentes, ou melhor, o "resumo" dos mais recentes.

A opinião é o caminho da maioria: ler textos curtos e "mastigados" com frases de efeito. 

O conhecimento verdadeiro é um caminho exigente: exige estudo de diferentes pontos de vista. Isso leva tempo e dá muito trabalho.

A Doutrina Católica

Entendo por "doutrina" uma constelação de ideias que se conectam por um fio condutor, mesmo que aparentemente pareçam contraditórias, formando uma unidade.

A Doutrina Católica começa com o Novo Testamento (embora faça uso do Velho Testamento). Com Ireneu de Lyon no século II, passando pela Patristica culminado em Agostinho de Hipona e atingindo seu ponto alto na Escolástica com Tomás de Aquino.

Não quero dar a entender que isso seja tudo: há autores intermediários entre e após estes citados, além do exemplo dos "Santos". O ponto é que alguns autores se destacam pela extensão e profundidade da sua produção.

Matematicamente poderíamos dizer que: Novo Testamento + Velho Testamento + Tradição (estudo dos Patriarcas e Escolásticos) + Vida Exemplar dos Santos (incluo mesmo os que não foram "santificados") = Doutrina Católica.

As objeções óbvias poderiam ser as seguintes: se a Igreja Católica errou na escolha e tradução dos livros bíblicos; se a "tradição" alterou ou corrompeu o sentido das Escrituras.

A isto seria justo examinar também se as petições da Reforma Protestante são válidas e se o que é ensinado na formação dos sacerdotes e o que chega aos fiéis é efetivamente "Católico" por este prisma.

Todos estes pontos exigem uma explanação longa e trato específico de cada ponto. Este critério extrapola este limitado ensaio. 

Pretendo abordar aos poucos estes assuntos, mas já posso adiantar que o que delimitei como "Doutrina Católica" é um campo muito vasto e realmente a maioria pouco compreende dela: estejam dentro ou fora da Igreja.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

O Reino da Doxa (Opinião) II

Alguns séculos antes de Cristo os sofistas relutavam  adotar um critério objetivo do conhecimento verdadeiro além do que aprendia pelos sentidos e pela experiência.
A causa residia na variedade do princípio de conhecimento: a água, fogo, a mente, os números, etc.
O argumento é simples: se a maioria dos "sábios" não chegam a um acordo, então não existe um conhecimento verdadeiro sobre certas coisas: estamos de acordo sobre a existência desta árvore à nossa frente, mas não sobre o que é justiça.
Dos sofistas passemos ao nominalismo de Ockham do século XIV: a semente de que a ideia não existe fora da mente que a concebe, a separação radical das espécies de conhecimento (Teologia e Filosofia, por exemplo) e a teoria que o conceito mais simples deve ser preferido nas ciências. 
O nominalismo foi o carro chefe do que se seguiu depois e culminou no Iluminismo Francês. Aqui vemos que o homem é concebido à parte e em pedaços até chegar em Hegel e finalmente no marxismo. O positivismo arrematou estas ideias.

O Reino da Doxa (Opinião) I

O conhecimento é um ato humano de extrema complexidade.
Conhecemos a maçã, isto é: vemos sua cor, pelo tato sentimos sua textura, pelo faro percebemos seu cheiro e podemos ouvir o som quando a batemos numa superfície. Mas a maçã é tudo isso... e muito mais.
Conhecimento e verdade não são sinônimos: vemos o sol se "mover", acreditamos que seja um disco pequeno, mas o sol "é" muito diferente disso. A experiência pessoal de cada um basta para provar que o falso pode ser conhecido e se passa por verdadeiro.
Ainda hoje se discute se podemos conhecer verdadeiramente ou se tudo passa de convenções. Isso já tem, no mínimo, mais de 2000 anos...
Afirmar que tudo é igualmente verdadeiro ou que nada tem verdade objetiva, cai no mesmo absurdo. Alguém que sustente não haver verdade absoluta, acaba de criar uma. Se todos os enunciados são verdadeiros, anula-se pelo fato de alguém sustentar que tudo é falso.
A solução de Platão, Aristóteles e dos Escolásticos é de que podemos conhecer verdadeiramente ao menos uma parte da realidade (o que é).

A Leitura e o Leitor

Os três graus de leitura - literalidade, figuras de linguagem e o das ideias - devem ser compreendidos como estruturas que se conectam entre si. Dito de outro modo, a compreensão correta de um texto depende destas três esferas simultaneamente, com predominância de uma delas .

Uma fábula de Esopo, por exemplo, já exige uma agilidade mental para fazer analogias entre as características humanas figuradas pelos animais e as ações entre eles.

Romances e ficções, em geral, não oferecem grandes dificuldades para serem compreendidos. Obviamente dependerá do quanto o autor "misturou" suas ideias no texto, especialmente se fez uso de "símbolos" (estes são complexos e exigem uma exposição própria para tratar).

A obra "1984" de Orwell aborda ideias complexas sobre o uso da linguagem para que um grupo exerça poder sobre uma grande maioria. Ser "alfabetizado" não é suficiente para compreender esta obra: é preciso entender as analogias e que as palavras assumem significados sutis na obra.

Acima destas estão as obras filosóficas: os diálogos de Platão, a Metafísica de Aristóteles, a Trindade de Agostinho e a Suma Teológica de São Tomás contém os três níveis de leitura em grau elevadíssimo, além de serem carregadas de simbolismo. Em geral, obras filosóficas são as mais complexas para se entender.

Contudo, é preciso considerar como já foi dito antes, o uso do simbolismo: Dante utiliza na "Divina Comédia" ideias filosóficas dos escolásticos revestidos de elevado simbolismo. Não sem razão, este poema é, talvez, o ponto alto da literatura da humanidade.

Todos podem ler um simples bilhete, mas compreender certas obras, mesmo de forma geral, parece ser para um círculo restrito de pessoas. Copleston alude que Avicena leu a "Metafísica" de Aristóteles 40 vezes para compreende-la bem.

E a Bíblia? Esta é carregada de simbolismo, que muitos confundem equivocadamente com as figuras de linguagem da gramática. Não se trata disso. Ser alfabetizado, por melhor que seja, não é suficiente. A leitura do "Símbolo" é exigente, donde cai por terra a falácia da "sola scriptura".

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Os Graus de Leitura III: As Ideias

Depois de dominada a estrutura da linguagem e adquirido certa plasticidade no uso das palavras  (o que não se deve entender de forma absoluta) podemos abordar o nível ainda mais complexo que os anteriores: o das ideias.
Uma simples palavra, neste nível, adquire significado específico que é válido dentro de um sistema de pensamento. Isto é algo que transcende à "figura de linguagem" e torna a palavra (termo) e sua definição (conceito) incompreensível para uma grande parte da humanidade.
A palavra "substância", por exemplo, para nós modernos é semelhante à matéria  (a madeira desta mesa). Para Aristóteles esta palavra designa a essência (forma) com a matéria que subsiste por si mesma. Note-se que não consideramos a "forma" interna na definição moderna.
Pode parecer uma simples questão acadêmica, mas é através das "ideias" que interpretamos a Realidade, ou seja, que agimos dentro da esfera das ações humanas. Seja analfabeto ou doutorado, o ser humano "age" por ideias - quer sejam oriundas de si mesmo ou alheias.
Richard Weaver em seu livro "As ideias têm consequências" (1948) afirma que a maioria das pessoas segue ideias alheias, mesmo sem perceber e  - ainda mais trágico - a humanidade paga caro por seguir ideias equivocadas...

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Os Graus de Leitura II: Figuras de Linguagem

Não basta conhecer a estrutura formal da linguagem para ser bom leitor ou escritor. Além deste difícil atributo, faz-se necessário o domínio das "figuras de linguagem". Uma palavra, por exemplo, pode adquirir diversos sentidos dentro de um idioma.
No exemplo "Sócrates tropeçou na calçada", não há dificuldade. Mas se dissermos "Sócrates tropeça nas palavras", é exigido um nível de abstração acima do literal e a dificuldade para entender aumenta. A leitura e reflexão no estudo de obras literárias de autores de diversas épocas ajudam a desenvolver esta plasticidade intelectual.
Pode-se objetar que as "figuras de linguagem" fazem parte da estrutura forma da gramática e seriam, portanto, literais. Não é este o sentido que usamos aqui. Para perceber a esfera de ação deste nível é necessária a adição da "imaginação" no processo, o que não se dá automaticamente na aquisição da estrutura formal (gramática).
Machado de Assis nos dá um exemplo brilhante quando diz que Brás Cubas não é um "autor defunto" (um homem que escreve  livro e faleceu), mas sim um "defunto autor" (alguém que no mundo do Além resolveu escrever um livro).
No nível das "figuras de linguagem" as dificuldades se tornam ainda maiores que na fase da gramática. Muitas frases se tornam "polêmicas" porque as pessoas não compreendem "figuras de linguagem". Um exemplo moderno é o "menino usa azul e menina usa rosa": literalmente é um absurdo.

Felicidade: existe?

É bem conhecida a expressão "quer ser feliz ou ter razão?". Ser feliz, neste sentido, é um estado superior ao de estar certo num c...